Para se sentir bem

Sueli Yngaunis

Sou a Sueli Yngaunis, e inicialmente gostaria de compartilhar um sentimento relacionado ao envelhecimento dos meus pais, juntamente com a doença de Alzheimer que acometeu minha mãe.

Ver os pais envelhecerem e se descobrir como pais e mães deles: É perceber que para algumas coisas eles precisam de nossa ajuda. É perceber que para outras coisas eles são teimosos, e não se percebem como carentes de cuidados. É aprender, às vezes a duras penas, como lidar com os períodos de agitação deles, e fazer força para compreender. É aceitar entrar na história deles, e não aborrecê-los tentando convencer de que eles estão errados. É descobrir maneiras diferentes de contornar situações difíceis e, na maioria das vezes aceitar que precisamos de ajuda. É perceber que mais vale os poucos minutos de alegria de que eles se lembram, do que a todo custo encontrar fórmulas mágicas para recuperar a memória deles. Mais vale a qualidade do tempo que passamos com eles, do que a razão que queremos ter diante da situação. Ver os pais envelhecerem, e estar junto nesse processo é um grande aprendizado.

Além disso, o que mais me marcou até agora nessa experiência de cuidar foi a aceitação. Aceitar de que eu sou impotente diante da doença senil, e que eu precisava da ajuda de pessoas que conhecem o assunto. Aprendi que delegar os cuidados físicos de minha mãe a terceiros, me deu mais tempo e disposição para mimá-la, levar para passear, dar boas risadas, e viver intensamente as histórias que ela imagina e conta, e é viver a imaginação dela de quem já morreu, mas para ela ainda está vivo. É curtir quando ela conta que foi ao supermercado, que fez isso ou aquilo. Eu já não fico triste. E o contato dela com outros idosos a beneficia mais, do que ficar só.

Para mim ser um cuidador é zelar pelos cuidados físicos de que os idosos precisam, sem abrir mão do afeto e respeito pela individualidade deles. O Alzheimer chegou na família bem devagarinho, misturado com os sintomas de bipolaridade. E isso confundiu um pouco. Meu pai ainda era vivo quando começou a doença da minha mãe, e cerca de um ano depois, ele faleceu. Eu e minha irmã nos vimos diante da situação, e com a difícil tarefa de procurar ajuda médica. O período de adaptação dos remédios foi longo e difícil, e como eu é que morava com ela, vivi esse sofrimento junto dela. Minha irmã sofria e se preocupava mais comigo, pois sabia o que eu vivia. Tentamos cuidadoras, a última foi ótima, mas também ela não conseguia lidar com nossa mãe. Minha mãe insistia em sair dirigindo o seu carro e, após chamar a polícia várias vezes para impedi-la, decidimos que já era hora de institucionalizar. Foi a decisão mais difícil que tomei na vida, e o processo também foi dolorido. Ela brigou muito. Tentamos algumas casas, e finalmente acertamos na que ela está hoje. Já não pede tanto para voltar para casa. Reconhece as pessoas que cuidam dela pela voz, e fala muito bem das cuidadoras. Tem fisioterapia, música, artesanato, e vibro quando vejo as fotos dessas atividades dela como se fosse mãe de uma criança no jardim de infância. Outro dia me mostrou o desenho dela no quadro de avisos da casa. O brilho no seu olhar voltou, não para a nossa realidade, mas para a história que ela vive. E finalmente, descobri que institucionalizar minha mãe não foi o que achei no início, sentimento de abandono. E sim, o amor aumenta, pois estamos zelando para que receba o melhor.

(Sueli Yngaunis)

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