Para se sentir bem

Josephina dos Santos

Sou a Josephina dos Santos, e mais ou menos por volta do ano 2000, foi quando percebi algumas mudanças estranhas na mamãe…

Eu ainda trabalhava na ótica, no final da rua onde ela morava… Ela vinha ficar um pouco com a gente e mais tarde voltava para casa dela. Às vezes eu ia até a casa dela na hora do almoço e percebia que não havia almoçado, pois não tinha louça ou comida, nada que denotasse que tinha feito algo na cozinha, ela simplesmente esquecia de almoçar ou falava que já tinha almoçado e que já era hora do café. Fui percebendo que se esquecia das coisas… decidimos levar ao médico, fez exames e foi diagnosticada aos 81 anos com DA (Doença de Alzheimer). Foi um choque para nós…

Começou a tratar a doença, ainda morando sozinha, foi quando os esquecimentos foram piorando e piorando e oferecendo risco para ela mesma… decidimos levá-la para casa para cuidar melhor e as mudanças foram radicais, o comportamento dela cada dia mais diferente, íamos trocando e ajudando ela a fazer as coisas, para que não perdesse sua autonomia nas poucas coisas que conseguia fazer… banho passou a ser uma briga diária… foi também agravando o quadro no dia-a-dia, agressividade, não reconhecimento familiar, às vezes apatia, silêncio.

E para dividir com os outros dois irmãos era difícil, pois um era alcoólatra e outro quando ela voltava da casa dele, era muito pior, pela falta de cuidados gerais e perda de referência local, mudanças de ambiente… eu mesma ficava revoltada por não poder fazer mais as coisas ou sair de casa… a doença cada vez mais foi tomando conta dela e das nossas vidas, pois a família adoece junto com o doente… Eu, meu marido e minha filha cuidamos dela, mas eu sempre fui a principal cuidadora, ela não me reconhecia mais ao longo dos anos… sempre tive o apoio dos meus filhos e de uma sobrinha. Foram muitas idas e vindas de hospitais… por conta de infecções urinárias ou pneumonias, uma fratura porque ela fazia muitas “artes”, às vezes momentos de lucidez, muitos situações engraçadas e cômicas, se não fosse trágico pela situação da doença… ríamos muito, mas choramos muito também, muita raiva, muitas vezes reconheço que perdi (perdemos) a paciência.

Os anos foram passando e tudo foi se ajeitando cada dia mais, passou os últimos cinco meses numa cama hospitalar, com sonda, soro e fralda… muito desgaste, muito sofrimento, muita raiva, falta de entendimento do porque comigo? Em certas ocasiões era muito difícil para eu olhar e ver minha mãe perdida dentro dela mesma… o que eu mais sentia era o olhar dela parado me olhando, talvez gostaria de falar algo, mas não era possível, as palavras já não saíam mais, passaram a ser incompreensíveis, eram somente sons ou o silêncio… apenas o olhar… perdido…

Queria que as famílias se unissem mais, porque a família é muito importante, o amor incondicional, a união, as vezes deram lugar ao desespero, a tristeza, e angústia, choro, mágoa, solidão… mas meu marido meus filhos foram meu apoio, não me deixaram desistir…

Muitas madrugadas, muitas noites sem dormir. Trocas de dias pela noite ao longo de 15 longos anos, até que foi internada e o médico decidiu entrar com cuidados paliativos, tirar a medicação, retirar a sonda e manter o conforto possível junto da família. Ela veio a falecer e a partir desse dia, depois de 15 longos anos, aprendi com o apoio de minha família a me reinventar.

(Josephina dos Santos)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Preencha esse campo
Preencha esse campo
Digite um endereço de e-mail válido.
Você precisa concordar com os termos para prosseguir

Menu