Para se sentir bem

Cynthia Simoni Pires Matarazzo

Minha mãe faleceu e passei a ser cuidada pela minha avó

Sou a Cynthia Simoni Pires Matarazzo, tenho 35 anos, aos 13 anos minha mãe faleceu e passei a ser cuidada pela minha avó, por uns 6 a 7 anos, até que ela começou a apresentar algumas dificuldades de memória. Pouco depois foi diagnosticada com doença de Alzheimer. Não sou a cuidadora principal da minha avó, mas, sou uma dentre vários familiares que dividem o cuidado. Um dos problemas que minha avó enfrentou com a evolução do quadro foi a perda da interação com a gente, mas partiu da gente ir estimulando e prolongando essa pequena interação que ela demonstrava. Então, eu chego, faço questão de cumprimentar, afinal ela está ali. O quão lúcida ou não, ela está ali. Então eu chego, cumprimento, dou beijo, pergunto como ela está, como passou a noite. Às vezes, não entendo o que ela quer dizer, mas do jeito dela, ela conversa, interage e responde. Eu levo como se tivesse entendido e dou, com uma certa coerência, continuidade na conversa. Mas, ela vai se desligando e eu procuro não pensar muito essa evolução. Cada estágio que ela teve da demência, ela foi se isolando aos pouquinhos do convívio, me fazendo pensar muito em como ia ser no fim. E daí percebi que estava adiantando um sofrimento porque a gente não sabe quando vai ser o fim, de que forma vai ser, então mudei minha forma de pensar. Tento levar como sendo um dia depois do outro, cada coisa é uma novidade, tento passar por essa fase da melhor forma possível. No começo de cada mudança sempre é mais difícil porque a gente precisa aprender a se adaptar e a conviver com essa nova fase, mas depois a gente acostuma usando um pouquinho de jogo de cintura para não afetar tanto emocionalmente, senão acabamos “desligando” eles antes da hora porque se pensamos “ah, ele não entende o que eu digo então eu não vou dizer, ele não sente meu carinho, então não vou dar carinho”, assim vamos abreviando uma coisa que talvez seja crucial para eles, que faça falta esse sentimento no dia a dia.

Nos pequenos gestos você percebe que eles estão ali. Não foram para um mundo paralelo. Nesses 19 anos de convivência de muitas novidades e surpresas, o que aprendi é que eles continuam ali. Na nossa família sempre procuramos incluí-la ao máximo. Muitas vezes deixamos de sair para almoçar fora para poder almoçar na presença dela. E, em todos os momentos que pudemos levá-la em comemorações e em festas, a gente levou. Atualmente, mesmo com toda a limitação que ela apresenta, mantemos suas rotinas normais como a gente também faz. De manhã ela é tirada da cama, toma banho no banheiro, tiramos a dentadura para escovar os dentes, ela não fica na cama, não fica de pijama, ela coloca roupa como a gente também coloca. Ela vai pra sala e tem a rotina como a de todo mundo.

(Cynthia Simoni Pires Matarazzo)

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