Para cuidar bem

Arte terapia: Somos todos cuidadores

Nossa sobrevivência neste mundo, só é possível se formos cuidados por alguém e mesmo assim, curiosamente há quem pense que somos suficientes quando sós. Grande ilusão.

Faz noventa anos que Elza nasceu e nos braços da sua mãe recebeu os primeiros cuidados que garantiram a ela o direito de viver. Faz noventa anos que Elza recebeu, através da atenção de sua mãe, toda condição que precisava para crescer e se desenvolver. Seu choro era forte, o que lhe garantia uma imediata dedicação, que neste caso, era repleta de um carinho refletido, futuramente, durante todo seu percurso desses noventa anos de idade.

Elza, com o amor que aprendeu com os pais, constituiu sua família demonstrando ao longo de sua vida, uma paixão imensurável por seu marido. Deste casamento vieram dois filhos e ela se dedicou inteiramente a cuidar da casa e da prole.

E a vida segue como um rio cujo percurso sinuoso nos faz refletir sobre este vem e vai de cuidados que permeia a nossa existência.

Thomas Cole (1801 – 1848) foi um importante pintor inglês radicado nos Estados Unidos que fez parte da Escola do Rio Hudson, um movimento artístico que floresceu em meados do século XIX caracterizado pelo realismo e pelas pinturas de paisagens.

Em sua obra de 1836, conhecida como “O cotovelo do rio” o pintor nos entrega de presente, uma poética analogia a esta vida repleta de cuidados.

Basta pensar que o viver segue o fluxo das águas dando voltas e misturando-se com o cuidado que recebemos e que doamos ao longo da vida.

Um cuidar que é visto como um realce da nossa existência quando promove um caminho para a independência, como as cores usadas na parte direita da pintura cuja luminosidade faz nossos olhos perceber o horizonte. Este cuidar que faz naturalmente parte de nossas vidas e que nos ensina, um dia, a cuidarmos de nós mesmos, parece estar representado na pintura de Cole na área de tons opostos, claros e escuros para levar o nosso olhar a percorrer todas as plantações até o monte mais além. Este lado direito da obra nos faz cogitar um horizonte límpido para os tempos futuros conferindo que a dedicação ao outro pode ser um acalanto. Por vezes o cuidar se sucede a um viver tempestuoso como o lado esquerdo da pintura do artista. O céu violento e as nuvens escuras dominam a área selvagem da paisagem e mergulham nossos olhos num viver denso e tumultuado como o que vivemos quando o cuidar parece exigir muito mais do que nossas forças permitem.

Como estar na tempestade e ser capaz de vislumbrar o horizonte ao lado representado por Cole que nos mostra que, no vale, a tempestade por ali já passou?

Viver as dificuldades das paisagens da vida sem perder de vista a possibilidade de um viver límpido deveria ser prioridade na vida dos inúmeros cuidadores que dedicam seus dias, seus afetos e seu trabalho a um cuidar exaustivo. Em meio às paisagens selvagens é preciso achar atalhos que nos levem a campos banhados por uma luz suave, como na pintura de Thomas Cole. A Arte é o caminho, mas poucos sabem disso.

Ao envolver aqueles que precisam de cuidados com a Arte, novos caminhos poderão ser descobertos. O fazer artístico é capaz de diluir o stress causado pelas paisagens selvagens enquanto o contato visual com a Arte é capaz de despertar sensações sufocadas por um viver pesado.

Cuidar e ser cuidados. A vida é como um rio cujas águas se misturam na busca do encontro com o mar.

Elza segue o fluxo da vida e atualmente recebe o doce cuidado de Lizete que parece compreender o ato de cuidar como um ato de amor. Pelas mãos de sua cuidadora ela recebe de volta todo afeto que semeou ao longo da vida e em meio ao esquecimento que toma conta de sua velhice, ela relembra o carinho que dedicou quando os cuidados de sua casa e família estavam em suas mãos.

Elza vive o cuidar com maestria e no atelier de Arteterapia que frequenta produz estímulo e sensações que modificam sua rotina. Entre uma pincelada e outra, que a vida possa seguir seu curso com nosso olhar focado, sempre em novos horizontes. Cultivaremos a área selvagem ou nossos desejos por uma terra cultivada pelas águas límpidas e dias claros falará mais alto?

Elza sempre foi cuidadora e hoje precisa de cuidados. Não lembra de fatos e coisas mas não esquece a sua dedicação ao outro durante toda sua existência. Hoje ela recebe o que ontem entregava, e desta maneira a vida segue entre tempestade e escuridão, calmaria e novos horizontes como possibilidades. Há noventa anos sua vida permeia o cuidado. A vida segue neste vai e vem de Elzas e Lizetes.

Ali na frente a tempestade já passou.

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