Para se sentir bem

Ana Maria Barbieri

Sou Ana Maria Barbieri, tenho 50 anos e desde os 10 anos acompanhei meus pais zelando por meus avós, que tiveram várias morbidades diferentes.

Como temos médicos e enfermeira na família pude vivenciar diversas situações em casa e auxiliar minha mãe em cuidados e curativos, juntamente com enfermagem 24 horas. Experimentei na minha adolescência convivência e rotina modificadas pela situação. Após o falecimento dos meus avós houve um intervalo considerável até que minha sogra, meu pai e, por último minha mãe necessitasse de cuidados gradualmente mais intensivos.  Éramos meus irmãos, eu, meu marido e seus irmãos à assumir a responsabilidade.

O ato de cuidar é exigente em si próprio. Sabemos que quem cuida há que estar inteiro, presente, tranquilo e disposto para que consiga desempenhar sua função sem desgaste, mas também sabemos o quanto isto pode ser  difícil de executar em plenitude. Aprendi com o tempo que o melhor modo de fazer acontecer este processo é deixar as situações fluírem sem tensões. Todos saem menos desgastados e as coisas são feitas talvez não perfeitamente conforme o desejado , mas num grau altamente aceitável e o melhor que poderia ser feito, foi conseguido naquele momento – pronto. Se o banho não foi no horário habitual, ou não foi tãão meticuloso hoje, ok, amanhã será outra oportunidade, com outros humores. Se a alimentação não está sendo aceita agora, ok, daqui à pouco tentamos – talvez a fome do momento seja de um papinho, uma caminhadinha , a leitura de uma notícia, e depois o apetite se não aparece, ao menos cede.

Recordo de sair muito esgotada da casa de meus pais  na época em que somente ele estava adoentado. Minha mãe não aceitava a perda de memória de meu pai, homem inteligentíssimo. Cada vez que ele repetia o assunto, ela insistia em pontuar a situação. Ele então ficava irritado e era um desacerto. Percebi que o meu desgaste era com a atitude dela (que provinha da negação de vê-lo naquela situação) e não em repetir com ele quantas vezes fosse necessário o assunto. Eu até me distraía, deixando como afirmei acima, as coisas fluírem – e em cada repetição eu dava um novo fim àquela história, conversávamos horas divagando o mesmo tema com vários “floreios” meus, e nossa, eu não sabia o quão criativa minha imaginação era.

Hoje, tenho muitas saudades … Não consegui mudar a atitude de minha mãe esgotando-se em desapontamento, mas eu melhorei muito a sensação que tinha ao sair de lá adotando este “método”. Foi um alívio aprender a lidar com isto, eu ficava muito frustrada em chegar em casa com aquela “carga”, afinal meu marido e meus filhos aguardavam-me de preferência inteira, como estavam habituados.

Então esta fluidez ou diminuição de tensão no diálogo e atendimento ao idoso certamente traz tanto mais benefícios para quem cuida, como para quem recebe o cuidado, e acredito ser fator importante a ser considerado para uma convivência harmoniosa e um ambiente agradável e prazeroso, um facilitador gigante para a empatia acontecer.

(Ana Maria Barbieri)

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